quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente compôs o Auto da Barca do Inferno em 1517, sendo este auto considerado uma moralidade. As moralidades eram representações cujas personagens simbólicas encarnavam vícios ou virtudes com o objetivo de moralizar a sociedade.
Este auto não segue a divisão da estrutura externa em atos e cenas, comum ao texto dramático. Embora o autor não tenha procedido a esta divisão, pode considerar-se que a peça se desenrola num só ato, uma vez que não há qualquer mudança de cenário e que é composta por onze cenas, correspondendo cada cena a uma nova entrada de personagens.
O resumo que se segue das várias cenas pode ajudar-te a compreender melhor o auto. Tu próprio deves ler cada cena e fazer um apanhado das ideias principais.

1ªcena – Faz-se a apresentação da barca do Inferno. O Diabo dialoga com o seu companheiro, revelando uma grande euforia e pressa de que tudo esteja preparado para o embarque das almas e para a partida rumo ao Inferno. Após esta breve apresentação, inicia-se o desfile das várias personagens-tipo.
2ª cena – A primeira personagem a entrar em cena é um Fidalgo, que traz consigo um pajem, um criado, que lhe segura a cauda do manto e uma cadeira. O Fidalgo pertence à nobreza e, por isso, acha que não vai para o Inferno, mas o Anjo não o deixa entrar na barca da Glória pelos seus pecados. O Fidalgo acaba por embarcar na barca do Inferno, enquanto o moço sai de cena.
3ª cena – A segunda personagem é um Onzeneiro, que viveu a amealhar dinheiro à custa dos outros. Por isso entra com uma bolsa tão grande que quase não cabe na barca. O Diabo quer que ele entre desde logo na sua barca, mas o Onzeneiro dirige-se primeiro à barca da Glória, sendo também repelido pelo Anjo. No entretanto, pede ao Diabo que o deixe voltar à terra para ir buscar um dinheiro que deixou escondido, mas o Diabo obriga-o a embarcar.
4ª cena – A terceira personagem a entrar é o Parvo, chamado Joane, que conversa com o Diabo, insultando-se um ao outro. Por ser uma personagem que não se pode responsabilizar pelos seus atos, o Anjo promete levá-la para o Paraíso; entretanto fica no cais onde assiste e comenta o desfile das outras personagens.
5ª cena – A quarta personagem é um Sapateiro, João Antão, que vem carregado de formas. Como passou a vida a roubar o povo, é condenado à barca do Inferno, mas primeiro ainda tenta a sorte junto do Anjo. De nada lhe adianta e entra na barca do Inferno.
6ª cena – Entra a quinta personagem, um Frade, a cantar, que traz pela mão uma moça, Florença, e ainda um traje de esgrimista por baixo do hábito. Como viveu uma vida de pecado, o Diabo também o convida a entrar na barca, mas ele e Florença dirigem-se ao Anjo, que os rejeita. Entram os dois na barca do Inferno.
7ª cena – Brísida Vaz é a sexta personagem a entrar em cena. Traz consigo um grupo de moças que entregou à prostitução. No entanto, e porque também é Alcoviteira, ainda se acha digna de entrar no Céu. Como tal não é possível, entra na barca do Inferno, e as suas moças abandonam a cena.
8ª cena – A sétima personagem a desfilar é um Judeu que traz um bode às costas. Nem sequer dialoga com o Anjo, pois não acredita na reliogião cristã. Também não entra na barque do Inferno, pois o Diabo decide que ele e o bode irão a reboque, já que era hábito os judeus estarem separados das outras pessoas. 
9ª cena – Entra um Corregedor, que vem carregado de processos. O Diabo acusa-o de se ter deixado subornar várias vezes. Entretanto, entra em cena um Procurador carregado de livros e que também se dirige ao Diabo. Ambos, Corregedor e Procurador, procuram um lugar na barca da Glória, mas acabam por entrar na do Inferno. O Corregedor discute com Brísida Vaz, pois tinha-a condenado.
10ª cena – Surge um Enforcado, que ainda traz a corda ao pescoço, convencido que poderia entrar na barca da Glória. Acaba por entrar também na barca do Inferno.
11ª cena – Finalmente, surgem Quatro Cavaleiros, que morreram a lutar pela Fé – razão bastante para ingressarem na barca da Glória.


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