quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Auto da Barca do Inferno, sistematização

Título:
A obra intitula-se Auto da Barca do Inferno, porque a maioria das personagens embarca na Barca do Diabo.
Classificação da obra:
Este texto dramático é um auto de moralidade, porque revela os vícios, os defeitos e os costumes da época de Quinhentos, criticando-os de modo a moralizar a sociedade.
Assunto:
O Auto apresenta a dualidade BEM/MAL, simbolizada pelas personagens alegóricas, Anjo e Diabo, as quais se encontram na respetiva BARCA, atracada ao CAIS. Aqui surgem várias ALMAS, que, através do diálogo com o Anjo e/ou o Diabo, expõem a sua vida, carregada de vícios, o que as leva à condenação.
Simbologia do cenário:
· Cais – representa o tribunal no qual somos julgados segundo o nosso comportamento enquanto vivos;
· Barcas – simbolizam a partida para o outro mundo;
· Rio – simboliza a divisão e a transição entre este mundo e o outro.
Personagens:
Anjo / Diabo

Semelhanças
Diferenças

·      São personagens alegóricas;
·      Nenhum deles tenta recuperar as personagens que entram em cena;
·      Ambos avaliam o tipo de vida das personagens, realçando os aspetos negativos (na generalidade);
·      Ambos têm uma única função:
Condenar (Diabo) ou salvar (Anjo).

·    Diabo: espera um grande número de passageiros, por isso enfeita a barca – “Põe bandeiras, que é festa!”;
·    Anjo: confiante de que não terá muita gente – “…veremos se vem alguém/ merecedor de tal bem (…);
·    Diabo: linguagem sarcástica, irónica, zombeteira, crítica, agressiva e, por vezes, chocante;
·    Anjo: sóbrio na linguagem e nos gestos;
·    Diabo: lembra às personagens que o destino já se encontra traçado, referindo os seus vícios;
·    Anjo: o julgamento é definitivo.




Personagens-tipo:

Semelhanças
Diferenças
·           Grande apego aos bens materiais e ao seu tipo de vida (exceções: Parvo e Cavaleiros);
·           Não existe um arrependimento real, embora, por vezes, haja uma tomada de consciência do erro;
·           Visão deturpada da religião;
·           Fazem-se acompanhar de símbolos cénicos (exceção: Parvo)
·             Percurso cénico;
·             Representatividade dos símbolos.


Relações entre as personagens:
·      Joane / Diabo: a ingenuidade do Parvo estanca a veia satírica e paralisa a agressividade do Diabo.
·      Joane / Anjo: o Parvo tem uma atitude de humildade e simplicidade.
·      Alcoviteira / Diabo: trata-o com rispidez e secura, pois acredita que não vai para o Inferno.
·      Diabo / Alcoviteira: é irónico.
·      Alcoviteira / Anjo: tenta seduzir o Anjo, utilizando uma linguagem bajuladora.
·      Anjo / Alcoviteira: trata-a rudemente, menosprezando-a. Tem ainda uma atitude de indiferença.
·      Alcoviteira /Corregedor: recebe-o mal, porque, em vida, a mandara açoitar.
·      Cavaleiros / Diabo: o segundo fica surpreendido com a segurança dos cruzados. Por sua vez, estes reagem com arrogância à interpelação do Diabo, achando-a ousada.
Tempo:
Situando-se num plano extraterreno, a ação não apresenta uma evolução cronológica.
Crítica:
Nesta peça, Gil Vicente denuncia os vícios da sociedade portuguesa quinhentista, segundo o lema latino ridendo castigat mores, isto é, a rir se corrigem os costumes. Assim, são criticados:

· A falsa prática religiosa;
· A corrupção da justiça;
· O judaísmo;
· A exploração;
· A tirania;
· A ganância;
·      A vaidade;
·      O desregramento sexual;
·      A ostentação;
·      O desprezo pelos humildes;
·      A ignorância e a credulidade;
·      A frivolidade.


Incongruências da peça:
·      Florença não fala durante a cena, nem é julgada; contudo, entra na barca do inferno;
·      O Parvo, apesar de ser inculto, fala latim macarrónico.

Estrutura externa:
Os textos dramáticos organizam-se, habitualmente, em atos que contêm diversas cenas. Tal não acontece no Auto da Barca do Inferno, embora não seja difícil dividir em cenas esta peça de Gil Vicente. Assim, temos as seguintes cenas:

·  Introdutória: diálogo entre o Diabo e o Companheiro (cena curta);
·  Fidalgo (cena longa);
·  Onzeneiro (cena curta);
·  Sapateiro (cena curta);
·  Frade (cena longa);
·  Frade (cena longa);
·    Alcoviteira (cena curta);
·    Judeu (cena curta);
·    Corregedor e Procurador (cena longa);
·    Enforcado (cena curta);
·    Cavaleiros (cena curta).


A estrutura repetitiva da peça é quebrada por:
· Cenas longas intercaladas com cenas curtas;
· Introdução de irregularidades e assimetrias: cantos do Diabo e do Frade a dançar, aparelhamento da Barca do Inferno, ordens dadas pelo Diabo e pelo Companheiro.
A peça é constituída por oitavas, com versos em redondilha maior, seguindo o esquema rimático abbaacca.

Estrutura interna:
Cada cena, exceto a inicial, apresenta as três partes clássicas:
· Exposição: breve e apresentação da personagem;
· Coflito: interrogatório feito pelo Diabo e pelo Anjo;
· Desenlace: atribuição da sentença.

O CóMico:
Cómico de caráter:
· A loucura de Joane e a inconsciência dos seus atos e das suas palavras.
· Um frade dançarino e enamorado (desajuste entre o que a personagem deveria ser e a realidade).
Cómico de linguagem:
· Uso do calão;
· Frases desconexas proferidas por Joane;
· As respostas absurdas de Joane;
· Ironia;
· Latim macarrónico;
· Falas de Brísida Vaz.
Cómico de situação:
· O Fidalgo que entra em cena presunçoso e seguro da sua salvação;
· Surpresa do Onzeneiro ao ver o Fidalgo na Barca do Inferno;
· Um frade que canta, dança e se faz acompanhar de uma moça;
· Lição de esgrima que o Frade dá ao Diabo;
· Encontro do Corregedor com Brísida Vaz na Barca do Inferno.

Linguagem:
A linguagem apresenta-se como um meio caracterizador das personagens, dos estatutos, das profissões, dos vícios, dos destinos, etc. Assim, Joane utiliza uma linguagem indecorosa, injuriosa, rude e agressiva; a do Sapateiro é desbragada e rude, registando-se a presença de tecnicismos, gíria profissional (“badana”, “cordovão”, etc.); o interesse que o Frade demonstra pela esgrima está patente nos termos técnicos a que recorre com frequência; a Alcoviteira apresenta uma linguagem ambígua e deturpada, invertendo o sentido das palavras que se encontram nos textos religiosos; o judeu recorre ao calão; o Corregedor usa o latim.
A linguagem transmite ainda o tom irónico e zombeteiro do Diabo, contrapondo-o ao ar calmo e austero do Anjo.
Como recursos estilísticos, há que realçar a ironia, o eufemismo e o recurso a trocadilhos.



Aspetos Medievais
Aspetos Renascentistas

· Inexistência de uma divisão externa (atos e cenas) da peça;
· Uso da redondilha maior;
· Conceção religiosa da vida humana (ideia do Juízo Final).


· Existência de uma exposição, de um conflito e de um desenlace;
· Dimensão crítica da peça.


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